No próximo dia 1 de Janeiro, faço 75 anos. Agradeço aos Sr. Nabokov e a Stanley Kubrick o facto de ter tido conhecimento do infeliz livro de Humbert Humbert, meu infortunado padrasto. Revolta-me que ele tenha criado um sub-título para a narração da sua neurose obsessiva: «Confissão de Um Viúvo de Cor Branca». Não tinha necessidade de confessar nada, aliás, não lhe serviu absolutamente nada como confissão, pois, além de não considerar crime nada cometido contra mim, ele estava acusado era do assassínio de Clare Quilty, dramaturgo, encenador e prosaico bêbado que nada teria a ver comigo, não fosse o facto de me haver apaixonado por ele, tal como antes me havia apaixonado por Humbert e antes e depois por muitos outros, graças a Deus. Houve por todos os que falaram nesta história, o cuidado de evitarem pormenores demasiado evidentes que permitissem a identificação de lugares ou pessoas. Vou usar da mesma discrição.
Humbert Humbert poderia ter tido um velhice feliz, como a minha e a de Roman Polansky, se não se lhe tem metido na cabeça, como é vulgar em muitos amantes do sexo masculino, que havia de ter o exclusivo da vida sexual do objecto da sua paixão. Abro um parêntesis para declarar que acho absolutamente ridículo continuarem a perseguir o cineasta, agora em prisão domiciliária na Suíça, por um pseudo-crime, cometido há mais de trinta anos, sobre uma rapariga que já é mulher, cresceu e tem uma vida normal de senhora casada feliz e com filhos. Ela é uma mulher honesta que considerou e bem, aquela relação, um acto positivo do seu crescimento e não exige dinheiro, nem qualquer outra forma de compensação. Certamente, como eu, sente-se completamente paga pelo prazer e carícias que recebeu. Mas está na moda exigir indemnizações. Há até grandes advogados, aqui e por todos os países ricos, especializados neste tipo de litígios, que recebem também grandes maquias. Mas isso é prostituição pura e simples e eu nunca vendi o meu corpo, sempre o ofereci gentilmente a quem achei digno de o receber. Se não houvesse esta ganância podem crer que ninguém falaria em pedofilias e abusos sexuais. Claro que os há, mas não deveriam formar um grupo à parte na gíria criminal, seriam pura e simplesmente punidos no âmbito da violência física contra outrem e castigados como tal, mas severamente, sem reduções, saídas precárias ou amnistias mais ou menos comemorativas.
Continuarei a ocultar a minha identidade verdadeira, os locais e pessoas a que me refiro também são fictícios, só os factos que relato são verdadeiros e na linha de Freud e de outros psicólogos do sexo (não dos que criaram os meninos e as meninas de vidro) são bastante mais comuns que a generalidade das pessoas admitem. Não olham à sua volta, não sabem interpretar os comportamentos infantis e juvenis e recusam-se a olhar para dentro de si para o mais remoto das suas memórias e aceitarem serenamente que foi assim errando e acertando, experimentando que chegaram ao estádio de crescimento em que se encontram. Infelizmente, muitos adultos renunciam e renegam a sua infância. A sua memória é pura e simplesmente apagada. Freud parece que chama a isto repressão nuns casos sublimação noutros.
Sempre que seja oportuno citar estudos sobre estas matérias eu o farei convencida de que estou a contribuir para uma desmistificação da infância, que muitos seraficamente querem que seja inocente. Vossas excelências conhecem coisa ou, vamos lá, pessoa mais perversa e sem piedade que uma criança?
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